Friday, August 8, 2014

Os Passos

Passos são estalos
Compassos quebradiços
Arrítmicas sucessões
De pequenos avanços
À frente ou à tangente
Na cidade que braveja
Passos são suspiros
A solidão que lateja 
Passos são fugas
São precipitações
Passos são palavras
E duros sermões
Passos são melodia
E a busca da paz
Passos podem ser asas
Num percurso assaz
Passos são cambaleio
E também são tropeço
Passos não findam em si
São antes um começo
Passos rompem a noite
São o assobio matutino
Passos são o caminho
Mesmo que não haja destino.

A Preguiça

As paredes frias, amareladas
Sujas, rabiscadas e decoradas
Cansadas de tantas resmungadas
Saudades em retratos e papéis ilustrados
As novas ideias já desbotadas
As obras mortas, emparedadas
Os montes de virtude inutilizada
Restos de comida carcomida
Os trapos fedidos com que eu me visto
Espalhados e amassados
Tresandam a perfumes amaldiçoados
Livros desonrados e abandonados
Poesia mofada, sem rima e cadência
O cheiro da inércia e da indiferença
O talento disperso e desperdiçado
Os planos ousados, todos mitigados
A janela que sopra o vento da madrugada
Que traz arrepios e calafrios
E me convida à vida que eu olho de soslaio
E abre a porta por onde eu não saio.

Monday, August 4, 2014

Sonetto Strambotto del Mitico

E meio assim, como se fosses um mito
Das filosofias mundanas e cáusticas
Das paixões insanas e das fugas drásticas
Eu falo de ti; a tua lembrança eu fito

Estás na roda de samba e na poesia vadia
Na gentileza inocente e na partilha da erva
Nos longos abraços e na volta a casa
Nas canções delirantes, nas noites de magia

Eu vou rumando até te reencontrar
Nas sortes do acaso ou numa nova investida
Não sei aonde; em qualquer lugar

Por mais que falhem os sentidos, és real nesta vida
O que te faz ser um mito é todo esse teu ar
De quem não suporta a leveza desmedida

E onde quer que o caminho que segues sozinho vá dar
Vou de boleia contigo à Finisterra perdida
Até que a redenção surja na paz que é o teu único lar.


Nota: dedicado ao meu amigo italiano, de Bréscia, Stefano.

Azeitonas Filosóficas

Azeitona filosófica
tiragosto esmiuçante
em prosa metódica
da realidade intrigante
Coelho lunar
padroeiro das causas etílicas
da boêmia embriaguez
da mais ébria lucidez.


Nota: Na Ribeira, ali confinada entre restaurantes e bares turísticos, há uma vendinha chamada Azeitoneira do Porto. Sorte têm aqueles que podem passar uma tarde degustando variados tipos de azeitona às margens do D'Ouro, bebendo vinho barato e tecendo quimeras filosóficas. Sorte tive eu. Eu e o meu amigo Otávio Moraes. 

Sunday, August 3, 2014

Soneto Lunar

Quando a prata cintilante rasga a penumbra
E suas manchas silhuetam o coelho selênico
- padroeiro supremo das causas etílicas -
O ritual, cá embaixo, na cachola reslumbra

Na Baixa ou na Alta, na Ribeira ou no beco
Estilhaçamos palavras em rajada e bravata
Orações seculares em goles secos permutam
Vagueamos em prosa, um mineiro e um tcheco

Consumimos ruelas e defloramos garrafas
Deixamos um rasto de poesia revoltada
E afogamos no álcool as vigências amorfas

Esmiuçamos quimeras da esfera que translada
E que gira sob os auspícios da nossa embriaguez
E depravamos olivas com dissimulada lucidez.


Nota: poema dedicado ao meu amigo poeta e pensador Otávio Moraes e às nossas aventuras etílicas, libertinas e filosóficas. Obrigado pela companhia, pela inspiração e por me fazer voltar a escrever poesia.

Isabel (Catarse Portuense)

Pelas artérias escuras
Ou numa ruela pálida
Sobre o asfalto frígido
Foges da noite ávida

Transgrides a lucidez
Beijas o alcatrão húmido
Desdenhas da sensatez
Vingas-te do olvido

Desafias altitudes
Entranhas-te pelas Virtudes
Pelos jardins que choram
As tuas vicissitudes

Pela urbe que pernoita
Fazes-me sequaz
Da purgação que te açoita
Dos pecados que te dão paz

Entorpeces esquinas
E avanças veredas
E das muralhas fernandinas
Expeles labaredas

A tua silhueta insegura
O equilíbrio à prova
No trapézio onde os loucos
Recitam-te em verso e prosa

A cara, a coroa
O vinho, a cruz
O passeio, a garoa
O calvário, a luz
As lágrimas salgadas
As curvas delgadas
As madeixas douradas
As roupas molhadas
Beijos na sarjeta
A cidade à espreita
A percepção rarefeita
A rua de Cedofeita
A Travessa das Almas
O recanto dos corpos
Uma noite inóspita
Que dispensa remorsos
O dilúvio que finda
Traz a calmaria
Ao atalho onde seguem
A tua sina e a minha.


Nota: dedicado a Joana Isabel, uma moça portuense.

Sunday, July 20, 2014

La Milanese

No teu entorno perdido
Dado sempre aos enganos
Mas desvendei-te, por fim
Nos desatinos mundanos

Sem querer ou mesmo querendo
Foi só uma questão de tempo
Até ver-me de ti peregrino
Nos meandros do teu destino

Eu juro pelos nossos abraços
Pelas noites nos teus braços abrigado
E por todo o vinho degustado
Pelos cartões postais enviados
E pelas sessões de cinema
Pelas nossas gargalhadas
E todas as jantaradas
E também pelas brigas travadas
E até pelas minhas fobias
- que não merecem mais que ironia -
Que a tua hospitalidade
Na minha própria cidade
Desacinzentou-me o céu
Descomprimiu o meu léu
Redecorou-me os lampejos
Regenerou-me os ensejos

Fiz zona de conforto
Na órbita da tua existência
O medo zelado de ti
Não era mais do que reverência

O teu humor rabugento
E a minha introversão
Elos tão fortes criados
Nossa estranha comunhão

A tua presença sutil
A tensão no teu feitio
A aspereza das tuas palavras
Tom sisudo mas sempre gentil
A rudez travestida em gestos
E teus trapos vadios e surrados
A estridência de um olhar
Que me guardava empedrado

De todas as nossas partilhas
- garrafas e confrarias -
A minha maior alegria
Foi ter-te em sintonia
Para edificarmos
Com a força da cumplicidade
A égide e o sustentáculo
Do palácio da amizade.


Nota: poema dedicado à minha amiga italiana Chiara Grilli, a Chiarinji.

Thursday, June 5, 2014

Os Artífices

A epopeia da martirização
O vício dos prazeres mórbidos
dos corações mutilados
O espetáculo agonizante dos autoflagelados
Dos que não dormem com medo de sonhar
Dos que não acordam com medo de viver
Dos semblantes embrutecidos pelo desgaste
Pela fraqueza e pela convenção
Pelo disparate das ondas eletromagnéticas
O cataclismo da individualidade
A negação do não
O sim teleguiado
A arrogância dos desesperados
A monstruosidade das marionetas
A complacência dos que se iluminam
de quem tem luz própria
A miséria da ostentação
A imoralidade dos moralistas
O pudor despudorado
Desinfetado, higienizado
Desumanizado
O banquete da desvirtude no altar da normalidade
A luxúria dos oportunistas
Dos asseclas bem integrados
O clímax da procrastinação
O ódio desperdiçado e o amor em distração
As ideias abortadas
E o medo cultivado
O cativeiro da coragem
O poema não rabiscado

Que, pela vida, eu não me ausente
Que dela eu seja consequente
Que, pela vida, eu não me ausente
Que nela eu viva sempre o presente

Sunday, June 1, 2014

Para Sempre Perdido

Não estou perdido
Só desencontrado
Procurar-me é a sina
É tudo o que eu faço
A manhã suave
Que acorda comigo
Ilumina o caminho
Por onde eu sigo
O rescaldo da noite
O alvorar do sentido
Desabrigado da alma
Sou quase um sem-abrigo
Não estou perdido
Só desencontrado
Nesta busca constante
Não quero ser compensado
Eu me fiz nesta vida
Onde o incerto é lei
Na viagem perdida
Eu me reencontrei
Quanto mais me procuro
Mais eu fico perdido
Pela estrada que avanço
Ficam os meus vestígios

Tuesday, May 27, 2014

A Amante

É claro que eu continuo irremediavelmente apaixonado 
Unicamente pela cidade mais bela, mágica, poética, 
Musical, encantadora, romântica, 
Libertina, misteriosa, fotogênica, 
Amaldiçoada, pecaminosa, visceral, 
Embriagante e inspiradora. 
É a ela que eu pertenço 
- por direito, por vício e por cumplicidade - 
E não a alguma mulher de alguma aventura carnal. 
Muitas garras podem arranhar as minhas costas 
Na expressão da libido,
Mas só as garras da Senhora do Leste,
Da Dama das Cem Torres, 
É que arranham o meu coração diariamente
Com toda a crueldade de uma amante sedenta. 
Do tesouro ela é o baluarte. 
É mais que o todo
E que a soma das partes.

Erasmus

Somos sempre tão jovens
Ou talvez nem tanto
Somos o mundo inteiro
Somos um só recanto
Somos todas as cores
E todas as línguas
Somos sabores e odores
De terras longínquas
Somos a confusão
A música e o vinho
Somos um só coração
E um mesmo caminho
Somos a aspiração
Da alma espairecida
Estudantes de novas lições
No curso da vida

Somos o frio da saudade
Da nossa gente e chão
Mas na nossa nova casa
Somos todos irmãos

E regressamos à terra
Com malas de corações
E a dor que fica no nosso
Disperso em mil porções

Somos uma utopia
Vivida a cada dia
De meses sempre tão curtos
Para tanta magia
Somos cada exagero
A ressaca e a catarse
Somos a paixão dos amantes
Quando transborda a amizade
Somos a cumplicidade
Em cada esquina
Somos da afinidade
Uma mera rotina
Somos o tom da expressão
Que colore a cidade
Somos a celebração
Da multiculturalidade

Thursday, May 22, 2014

Repúdio à Não Vida

Parte I

Aos que se movem por passos
sem caminhar de fato,
sem rumar pelos destinos da vida,
sem invadir as lacunas do mundo.
Aos procrastinadores do atarefamento,
atolados no estrume citadino
e nas funções de funcionários funcionais,
os velocistas das jornadas laborais,
confinados em caixotes móveis
que entorpecem a cidade com seu negrume gasoso.
Aos escravos da morbidez televisiva,
com vistas limitadas a um ângulo de sessenta graus.
Aos atinados modernos,
seres perdidos no mundo,
desencontrados de si mesmos.
Desatolem-se antes de serem enterrados
nesse estado de morte viva
dentro do próprio buraco
que a gravidade cavou no chão
com o peso da vossa consciência.
Caminhem contra o tempo
que vos consome feito fogo
e que esculpe em vosso semblante
a sua pressa implacável.
Fujam da loucura da normalidade,
da obediência às convenções,
da censura aos próprios sonhos.
Acordem e sonhem a realidade proibida
pela vertigem vertiginosa do acumulo do vazio,
pelo totalitarismo das ocupações inúteis
da engrenagem social.
Não há funeral mais desolador
do que a morte da vontade
e o estupro do impulso.
Não há vida mais valiosa
do que a morte por excesso de ousadia
e por excesso de negação prática
da própria morte moribunda.

Parte II

Morram,
mas morram empanturrados de vivência,
morram embriagados pela emoção,
morram esquartejados pela adrenalina,
decapitados pelo coração,
esfaqueados pela felicidade,
metralhados pelos abraços das amizades
e sufocados pelos beijos dos amores.
O privilégio da existência
é só dos que carregam
a refrescante exaustão da vida plena;
os demais, que vivem mortos,
só esperam que a carcaça seja enterrada,
por mais alucinados que aparentem
correndo em busca das doses diárias de nada.

Parte III

O pior sem-abrigo
é o que se desabriga da responsabilidade
de ser irresponsável.
O pior faminto
é o esfomeado de carnalidade,
o obsceno do pudor castrador,
o que não lava a alma
na chuva inconveniente
de uma noite depravada.
A tacanhice mais provinciana
é a dos urbanos
que desprezam o cheiro
da terra molhada
e o brilho do orvalho.
Não há maior covardia
do que a coragem de ocupar uma zona de conforto
que não passa de uma gaveta de concreto
onde cada suspiro é arquivado para sempre,
e cada desejo é compelido
em nome de um orgulho putrefato
que corrói feito câncer cada célula de dignidade.
Não há maior delírio religioso
do que a crença na própria perfeição,
e não há nada mais fútil
do que a inveja mórbida
da vida de quem não se suporta.



Sunday, May 18, 2014

O Diploma

Graduei-me nos exames práticos
Do asfalto frio e do vagão vazio
Do beco imundo e do quarto escuro
Dos copos e dos corpos
Dos livros empoeirados
Meu rasto é o meu currículo
A noite, minha docente
Nua e crua, ela ensinou
O que eu sei e o que eu sou
O teu diploma oficial
É um papel de convenção
Que decora o teu vazio
Com uma qualquer distinção
Vivendo a vida eu me formei
De caráter e de individualidade
Enquanto a cátedra te relegou
À academia da vaidade
O axiônimo do teu rabisco
Pode ser Mestre ou Doutor
Mas tua rubrica tem menos curvas
Do que a estrada que me formou
E pelos erros e desvios
Faço a vida que é minha
Não renego à minha vontade
Para encaixar-me na sociedade
E se por ti eu me perdi
Com isso também eu aprendi
Foste um teste que eu superei
A maior nota que eu tirei
Hoje eu olho para trás
E vejo o quanto eu cresci
E segues a vida parada
Lutando com velhos fantasmas
O que o futuro nos reserva
Até arrisco-me a prever
Transpiro a alma, sinto a essência
E tu sustentas uma aparência
A melancolia é o elo
Da nossa paz de cemitério
Do nosso amor é o duelo
Da sentença é o martelo
Mas a dor que a nós já não une
É diferente e eu sei por quê
Eu carrego o peso da vida
E tu flutuas sem viver.

Wednesday, May 14, 2014

Champanhe e Relva

Que ganhe ou perca o Benfica ou o Porto
Ou o caralho que vos fode com gosto
Porque vós já perdestes, não importa
E aceitastes, mansinhos, a derrota
Sois águia sem qualquer asa
Sois dragão que não inflama
Vereis a trupe dos Nunos Melos
E demais psicopatas da vida;
Estarão bebendo champanhe
Como bebem todos os dias
Em nome da vossa desgraça
E da vossa estupidez
E o farão mais uma vez
Sobre os degraus da altivez
E vós nada bebereis
Corja de cidadãos interinos
Porque sede vós não tendes
Só tendes sono, como os felinos
Mas faltam-vos garras
E vergonha nessas caras
E ousadia e desobediência
E até um pouco de violência
Para comerdes o banquete
Dos parasitas insolentes
Mas vós sois um rebanho
Empanturrado em relva sintética
A relva dos coliseus modernos
Antros da cegueira ludopédica.


Nota: um psicopata, da trupe dos "boys" dos corredores da plutocracia, vai à TV mostrar a garrafa de champanhe da sua farra em nome do povo. Este, por sua vez, não bebe champanhe, mas empanturra-se até ao talo de relva. Eu também gosto de futebol, em doses homeopáticas, relegando-o à reduzida importância que ele deve ter, sobretudo na vida de um povo que está sendo goleado pela crise dos fanfarrões de Lisboa e Bruxelas.

Tuesday, May 13, 2014

Beatriz

Numa rua escura
Idealizei-te
Fiz-me cosmopolita
Numa esquina da vida
A minha inocência
E a tua ternura
Arderam meu peito
Fiz-me aventureiro
Fui de ti à procura
Busquei-te em lapsos
Desvendei-me coragem
Cortejei-te em meus passos
Perdemo-nos na noite
Desafiamos os becos
Foste cúmplice fiel
Do meu crime perfeito
Desbravei estradas
Desfiz-me de amarras
Lapidei um romance
De lares distantes
Engoli a derrota
Chorando sem lágrimas
Numa guerra perdida
De batalhas vencidas
E quando a nossa distância
Um oceano alcançou
E eu, partido
Em lusas terras perdido
A tua voz, ressurgida
Quase que arrependida
Numa levada traquina
E pronúncia nordestina
Deixou-me a certeza
Da tua pureza
Edificou a tua lenda
E a tua singela nobreza
No ato do acaso
De uma noite eterna
Uma infância findada
E uma história criada
Da nossa aventura
Quimera do interior
Dei-me ao mundo;
Cosmopolita profundo
Mas mantive-me preso
Aos ares provincianos
Como em Aracaju
Por mais que passem os anos
Porque como a semente
De todas aquelas frutas
Está em mim plantada a guria
De Itaporanga D'Ajuda.


Nota: uma noite qualquer, sentado na esquina ouvindo música. Passa uma moça e eu a provoco. E é timidamente recíproco. E foi ali, numa praça vazia e vadia, algures em Aracaju. Um romance que acabou antes de começar, mas que me marcou tanto quanto a ela, a morena dos cabelos cacheados de Itaporanga.

Wednesday, April 23, 2014

A Volúpia

Rubra carnalidade
De corpos emaranhados:
Suores e odores;
Calvário dos pudores.

A música que embriaga,
As luzes que profanam;
Na bruma dos pecados
Tombam os honrados.

Festim de anjos caídos
Na casa do Diabo;
Despejam fecalúria
No beco da luxúria.

Altar dos libertinos,
Vingança dos aflitos:
Liberam suas culpas;
Partilham o gemido.

Rabiscam cicatrizes,
Emendam os cabelos;
Libertam-se das roupas
E minam os miolos.

Temperam com suor
O caldo infernal;
Desatam todo o nó
Da conduta moral.

Tragam cada gota
Do álcool ingerido
E na dança expelido
De corpos contorcidos.

À mesa ou no lavabo
Ninguém é inocente;
O coito segue o ritmo
Do Rock and Roll antigo.

A noite é generosa
E tem amplo cardápio
E só finda na manhã
Em um qualquer divã.

Jovens malditos,
Velhos carcomidos.
Orgia musical;
Que santo é o Carnaval!

Volúpia dos sentidos,
Dos beijos foragidos.
Compassos sensuais;
Instrumentos carnais.

Cidade dos pecados;
Da prevaricação,
Da alucinogenia,
Da vil melancolia.

Transborda a libido
E os cantos proibidos;
Entorpece a misantropia
No orgasmo da utopia.


Nota: "Vagon" é o nome de um pub de Rock and Roll em Praga. Quem já o frequentou, nem que por uma vez, sabe.

Tuesday, April 22, 2014

Senhora do Leste

Perdido em ti
Eu me desvendo
Dou-me aos passos
E te congestiono
Tuas artérias
Sempre inflamadas
E sou bombeado
Do teu coração
E faço de ti prisão
Abraças-me
Arranhas-me
És a maldição
E a redenção
Perdido em mim
Desvendo-te
Vomito nas tuas passarelas
Mijo nas tuas flores
Trepo-te nos teus amores
Nas tuas multiplicações
Nas tuas encruzilhadas
Nas noites embriagadas
Tens as garras
E o encanto
Eu só tenho o vício
E o tempo
Eu me perco
Se te encontro
Viver em ti
É cortejar a morte
E desprezar a sorte
É zerar o tempo
E congelar o medo
Tua aurora de fogo
Teu semblante afiado
O teu ventre fecundo
hordas de vagabundos
Acobertada
Pelo teu manto branco
E aquecida
No recanto dos teus membros
Em cada poro da tua pele
Antros da perdição
Por onde transpiram
Os teus sabores
Nos teus licores
Pelos teus seios
Em Vinohrady
Escorrego ao umbigo
Em Staromák
Atravesso-te o cinto
Pelas tuas pontes
Forço-te a entrada
em Divoká Šarka
E nos teus fluídos
Eu me deslizo
E faço um dueto
Com o pica-pau-preto
E subo ao teu rosto
Em Hostivař
Para, num beijo
Eu me afogar
E vagueando por ti
Eu me desvendo
Mesmo perdendo
O rumo do tempo
E desnorteado
Eu mesmo me rendo
Porque ainda sem guia
Seja noite ou dia
És a melhor companhia
Onde a inspiração renasce
E a solidão aprimora
O compasso que erra
Num caminho de pedra.



Nota: a senhora, de garras e semblante afiado, só poderia ser a musa de Kafka.